Contributo do Desporto para o Desenvolvimento da Criança

   O jogo é uma das formas mais comuns de comportamento durante a infância e é um excelente mediador de conhecimentos no processo de ensino-aprendizagem. A criança é livre para descobrir relações por ela mesma e construir o conhecimento de forma mais divertida e prazerosa (Santos & Marques, 2010). 

No entanto, note-se a pertinência de se colocar as crianças expostas a experiências de sucesso e bom desempenho podendo estas contribuir positivamente para sentimentos de realização pessoal e de prazer. O que não se verificaria se estas fossem expostas a más experiências, podendo estas desencadear sentimentos de incompetência pessoal, desilusão, frustração (Gomes, 2011).

   Segundo Price-Mitchell (2012), o desenvolvimento positivo das crianças que integram atividades desportivas está relacionado com: a intensidade, a continuidade e o equilíbrio, que quando combinados oferecem maiores benefícios.

   Desta forma a autora define a intensidade como a quantidade de tempo que as crianças gastam na prática desportiva, que será importante para os posteriores resultados alcançados com a sua participação. Refere ainda que aquelas que passam mais tempo em prática desportiva têm mais benefícios que os que despendem menos tempo, porém poderá haver exceções. Neste âmbito, quando se verifica maior dispêndio de tempo as crianças poderão desenvolver melhor o domínio da habilidade e conhecimento tático e estratégico (desenvolve o pensamento estratégico que será útil ao longo da sua vida). Por último menciona ainda que não há um tempo determinado ou perfeito para a criança se dedicar à atividade desportiva, uma vez que esta deverá entender que aquelas crianças que estão expostas a um maior compromisso para com a prática regular terão, consequentemente, maiores benefícios no seu desenvolvimento.

   No que respeita à continuidade, a autora afirma que aquelas crianças que fazem um compromisso ao longo do tempo, facilitam a probabilidade de aprendizagem, contemplando a liderança e superação dos desafios e obstáculos ao longo do seu desempenho, assim como terão maiores oportunidades de interação com colegas. Realça, portanto, que é um aspeto importante no desenvolvimento de iniciativa (uma força interna que dura a vida inteira). 

   Por fim, o equilíbrio, propõe que seja o mais importante dos três aspetos, pretendendo atingir um equilíbrio entre o desporto e outras atividades. Afirma que o mais importante não é o número de atividades desportivas em que estão inseridas, mas sim as restantes atividades fora do âmbito desportivo que realizam. Exemplifica através de um estudo, onde as crianças que participam em atividades desportivas e em clubes escolares têm menores taxas de depressão que aquelas que participam exclusivamente em atividades desportivas. Outro estudo refere que as crianças que participam em atividade com desafios do mundo real (ex.: voluntariado) têm melhores resultados no desenvolvimento. Estas atividades fazem com que as crianças desenvolvam uma identidade cívica e percebam que o mundo está para além de um jogo do ganhar e perder. 

   Price-Mitchell (2012), afirma que a decisão de fazer atividade desportiva consoante estes aspetos – de forma continua, intensa, equilibrada – para o sucesso despoletam dúvidas nas famílias. A decisão de se concentrar exclusivamente num desporto é alimentada por um forte compromisso com essa atividade, que traz alegria e satisfação de vida de um adolescente. Porém pode ser uma ambição por parte dos pais que querem ver os filhos a atingirem elevados resultados. Quando os desportos são colocados sobre elevados tempos e elevados gastos energéticos começam a surtir efeitos negativos.

  Desta forma, Segundo Gomes (2011), o desporto pode ter influências positivas nas crianças, mas pelo contrário, também pode exercer uma influência negativa. Quando este se refere às influências positivas aponta para o bem-estar, divertimento, o alcançar de objetivos e a competição. Em relação às influências negativas indica-nos as pressões que são exercidas sobre as crianças desde cedo para a vitória (pressão por parte de treinadores, clubes e pais).

  Nas influências positivas o autor cita que Brown (1992) et al. agrupa-as em dois domínios: ao nível físico e ao nível psicossocial. Ao nível físico sugere-nos a melhoria da saúde e aprendizagem de habilidades desportivas. Ao passo que ao nível psicossocial direcionam-nos para aspetos intrínsecos (liderança, autoconfiança, cooperação, amizade, entre outros) por intermédio do exercício através das regras e condutas específicas de cada modalidade. Desta forma, alguns exemplos de benefícios observados num programa desportivo para uma criança, podem ser: o desenvolvimento de competências positivas nos contextos social, psicológico e pessoal (autoestima, autodisciplina, trabalho em equipa, formulação de objetivos e autocontrole, autoimagem realista e positiva), assim como a indução de estilos de vida ativos (prática regular de exercício), divertimento e convívio. Para além de se poder conjugar com o desenvolvimento de competências físicas, consoante a modalidade em causa, havendo a possibilidade de as aperfeiçoar. Assim, facilitar-se-á a aprendizagem e o aperfeiçoamento dessas técnicas, o que dará melhor rendimento desportivo assim como trará melhor saúde (forma física). Por fim, permite a prática do “fair play”, através do respeito das regras da modalidade.

  Os riscos das influências negativas podem ser, segundo Gomes (2011) citado por Eklund & Cresswell, (2007); Tremayne & Tremayne, (2004); Stuart, (2003); Côté & Hay, (2002); Gomes, (1997); Strean, (1995); Heellstedt, (1988) a baixa autoestima das crianças e o outro risco associado poderá ser o desenvolvimento de comportamentos agressivos, através dos quais as crianças podem ter problemas de ansiedade excessiva. 

   Na óptica de Brown (1992), acrescenta-se ainda que o desenvolvimento de capacidades físicas incorretas ou imperfeitas pode incorrer: o risco de lesões, de doenças e na diminuição da forma física. Para além disso, a aprendizagem de regras ou estratégias de jogo erradas ou inadequadas aliadas a aprendizagens defeituosas de técnicas de manutenção e de promoção da forma física, o desenvolvimento de uma autoimagem negativa ou irrealista, a aprendizagem de formas ou meios desonestos para ganhar, a demonstração de comportamentos antissociais, o desenvolvimento de sentimentos de medo relativamente ao errar ou falhar e, por fim, a perda de tempo em atividades pouco proveitosas que podia contribuir para o conjunto de experiências negativas na área desportiva. 

  Em suma e segundo Gomes (2011), os treinadores têm como objetivo principal “promover a formação multifacetada e pluridisciplinar dos atletas em termos físicos, psicológicos e emocionais, utilizando como meio fundamental a prática desta modalidade, no sentido de ser esta a ocupar maior densidade de ocupação na formação dos jovens atletas.” 

 

Texto redigido por: Susana Berenguer

 

Bibliografia

Dias, I.S. (2011). Participação desportiva de crianças e jovens e desenvolvimento de competências de vida.In A.A. Machado & A.R. Gomes (Eds.), Psicologia do esporte: Da escola à competição (pp.99-128). Vázea Paulista: Editora Fontoura. Consultado em 21 de maio de 2016, disponível em http://www.editorafontoura.com.br/editora/produtos/psicologia-do-esporte- daescola-a-competicao.htm.

EscolaPsicologia. (2014). Como desenvolver a autoestima nas crianças? Consultado a 21 de maio de 2016, disponível em http://www.escolapsicologia.com/como-desenvolver-a-autoestima-nas-criancas/.

Gomes, A.R. (2011). A iniciação e formação desportiva e o desenvolvimento psicológico de crianças e jovens. In A.A. Machado & A.R. Gomes (Eds.), Psicologia do esporte: Da escola à competição (pp. 19-48). Várzea Paulista: Editora Fontoura. Disponível em http://www.editorafontoura.com.br/editora/produtos/psicologia-do-esporte-daescola-a-competicao.htm.

Psychology Today. (2012). The Psychology of Youth Sports: When playing the game fosters positive outcomes for kids.Consultado a 21 de maio de 2016, disponível emhttp://www.psychologytoday.com/blog/the-moment-youth/201201/the-psychology-youth-sports.